Sossego
(...)
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Fernando Pessoa (1931)
Então estava ela ali, com o cigarro entre os dedos, mais para passar o tempo do que pelo prazer do vício, tirando vagarosamente algumas baforadas, observando a fumaça que subia em ondas desconexas, perdendo-se no ar. Olhou para a porta que dava acesso à faculdade e viu a imagem nítida, absurdamente bela do homem que poderia ser seu. Naquele instante toda a realidade se desvaneceu, mergulhou num sentimento totalmente irreal e amou. Amor que jamais sentiu na vida, amor relâmpago, daquele que transpassa barreiras de tempo e espaço. Por um instante, sem intenção nenhuma, os olhos se cruzaram e o negrume dos olhos dele iluminou os olhos dela. Poderia ter sido mais um fato isolado em sua vida, mais um realce em seu cotidiano, mas não, a coisa foi se alastrando, tomando forma, penetrando todas as moléculas do seu corpo e permaneceu. Permaneceu ali, constante, intrigante e avassaladora. Encontros casuais, sem propósitos, palavras roubadas, poucas, sorvidas e arquivadas e ela o desejou, vislumbrou para si o perfil completo do corpo e da alma dele.
O amor dele era extremo, doce, verdadeiro, romântico, sensual. Amor de jovem, como ele e ela. Primeiro amor. Primeiras sensações, corpos entrelaçados, quase puros, se descobrindo, procurando, buscando... Ela era perfeita para ele e tudo estava resumido nessa relação. Bastava o óbvio para o concreto. Não havia nenhuma lacuna entre os dois. Eram completos.
O salão cheio, uísque, vodka, luzes em flashes, a banda imortalizando a comemoração. O efeito de todos os derivados, hormônios dissimulados, esperteza, coragem até terminar no inevitável. Enquanto o teto rodava, o salão gritava e gritava a alegria. O olhar decisivo, passos pequenos, a música vibrando toda a alma, o momento reduzido em milésimos de segundos, o abraço e “Me ame!” A música tão alta, a noite parecia infindável e eles poderiam ter vivido aquele momento para sempre. Nada... nada mais além do resquício do instante. Instante indelével, para ele e para ela. Instante insano e questionável, mas buliçoso, daquele que quer ir além, mas que se reserva por conta da incerteza.
Ele não podia se permitir à sedução. Tudo em sua vida estava no caminho certo. Mas, por quê? Não havia como questionar... Era um fato indiscutível, incoerente e louco!
Noite muito clara, de lua cheia. Lua das provocações, do insondável, do insólito e ele entregou seu corpo a ela. Não havia como recusar a aproximação etérea, acordando-o de mansinho, tocando seu peito, entrelaçando os dedos em seus cabelos, deslizando sutilmente as mãos delicadas em seu corpo nu, descendo devagarzinho, farejando seus desejos, a respiração vacilante escapando dos lábios entreabertos, buscando sua boca para materializar um beijo inefável, ardente. Sem recato permitiu-se ser amado, abraçou a forma de mulher que se oferecia, trêmula de paixão e beijou-a por inteiro. Nada mais pôde conter aquele momento. Deitou-a no lençol úmido com o suor dos seus corpos e consumou com voracidade o amor que ela lhe oferecia, experimentando uma paixão selvagem, sem reservas, uma paixão mistério. Momento eterno.
Ela lutava contra o sentimento que absorvia toda a sua força, mas não havia nada a ser feito. Pensava em desistir, porém era um sentimento muito forte, muito bom e a noite tornou-se sua aliada. Quantas vezes ele passara por ela, tão perto e nem a notara. Ela o acompanhava com o olhar, e esculpindo a fantasia daquela atração, tornava-o seu, só seu. Sabia que à noite ela o teria por inteiro.
Ele tentava entender tudo o que acontecia, no entanto a obsessão foi se tornando derradeira a ponto de cegar sua realidade e tornar sua alma submissa àquela paixão. Seus dias se tornaram autômatos. O trabalho, a noiva, tudo era rotineiro e quase importuno porque, o que realmente desejava, era aquele momento de êxtase que preenchia todo o seu ser de fantasia, ilusão... ah...como era bom! A noite é que trazia o delírio e ele ansiava pelos afagos dela. Ela o trazia preso. Sua doçura o fascinava e embevecia. Era muito bom para ser mentira, mas irreal para ser verdade. Estava no limite, porém não queria que acabasse. Tudo, então, se desordenou em sua vida. Não poderia continuar com aquela loucura. Tinha a vida planejada, todos os pontos pré-definidos, programados, como todo homem que pretende um futuro. Tranqüilidade . Então reagiu, buscando a forma de livrar-se daquilo que havia se tornado um vício, um vício que satisfazia sua alma e seu corpo e que, no entanto, lhe roubava a paz porque não era real, não poderia jamais ser real.
Seus dias foram tomados pela expectativa do casamento, tornando-se o objeto efetivo da sua vida. A mulher que preenchia substancialmente seus projetos e era com ela que ele iria consumar seus anseios. Estava decidido a não permitir mais que aquele espectro tomasse posse de seu corpo.
Ela podia sentir a reserva dele. Tantas noites, tantas investidas... Por quê? Ele não permitia mais sua aproximação. Sentia seu corpo chegar tão perto dele, seu perfume, quase tocava seus cabelos, mas ele se esquivava, fazia de seu eu uma fortaleza e não iria mais ser subserviente a ela. Nunca mais...
Fogos de artifícios colorindo o céu azul-índigo de maio ornamentavam o frio que chegara mais cedo, anunciando o inverno impertinente do Sul. Vento sul. Amigos, parentes, gente que nunca tinha visto estava lá. Sentia-se feliz, almejara essa felicidade! Casara com seu grande amor, quem o acompanhou sempre, cúmplice de seus dissabores e apreensões. Um arrepio de frio fez com que se aconchegasse mais a ela, num abraço confidente e suplicante de calor e afago. A seda branca do vestido e a mantilha de pele que a protegia do frio roçaram seu rosto aproximando-o da realidade e, o que queria naquele instante, era estar longe dali, com ela, deixar para trás suas inseguranças e incertezas. Estava feliz, e era o que importava. Olhou para o céu e uma chuva de estrelas douradas cingia aquele momento, o seu momento, o momento dos dois. Nada mais iria interferir no encanto daquele sentimento. Não permitiria, nunca mais. Convidados espalhados pelo jardim aplaudiam os noivos e o colorido dos fogos. Sentiu, então, a presença de uma figura diáfana de mulher entre as folhagens que observava os dois. Seria ela? Ela estaria ali? Seu corpo estremeceu e foi tomado por uma vertigem. Fechou os olhos e apoiou a cabeça nos ombros da noiva. Não queria acreditar que ela estivesse ali. No entanto, sentia o quanto ela ainda o mantinha subjugado. Preso num amor feroz, que o aniquilava e o subvertia totalmente. Iria ao seu encontro, diria que não a queria ali, que não interferisse em sua vida. Era assim o que realmente pretendia? Seria mesmo esse o seu propósito? Ou ansiava ainda tê-la nos braços na noite nervosa, misteriosa? Amor selvagem. Como a desejava! Quando ergueu a cabeça, não pôde mais vê-la, apenas via os fogos, os convidados, a alegria.
Um momento de arrebatamento levou-a a conjeturar aquilo que, para ela, era inevitável. Sabia-se indesejada? Nada mais poderia fazer para tê-lo e se foi.
À medida que a madrugada ia chegando, o frio vinha mais intenso e as nuvens caminhavam devagar cobrindo as estrelas e a lua. Ela dirigia seu carro rumo ao nada, que era o que agora desejava. O nada. Solidão. Seus pensamentos estavam confusos e não sentia vontade de chorar, mas lágrimas duras vertiam incontrolavelmente dos olhos e vincavam seu rosto. Não iria retornar. A neblina, cada vez mais, encobria a estrada e ela avançava naquela cortina tênue. Tentava dispensar o dualismo do bem e do mal e sublimar seu delírio. Fragmentos sinestésicos levavam-na aos momentos das noites de paixão e de repente, a compreensão do que vivera foi tomada por uma infinidade de incertezas imponderáveis. Pouco podia enxergar à sua frente e as lágrimas que insistiam em fluir ofuscavam ainda mais sua visão.
Onde ela estaria agora? Por que não o esperou? Não, não suportava a idéia de não tê-la mais. Noites vazias. Paradoxo.
À medida que o carro se afastava dele a distância ia se tornando mais autêntica para ela e dilacerava sua serenidade. A estrada concretizava em curvas a sua angústia.
Toda a ventura que almejara estava ali, ao seu alcance. Iria desfrutá-la. Sentiria e daria felicidade. A esposa. Mas ela, ah... Ela viria à noite, traria a ele aquele amor clandestino, fortuito...
As luzes do farol se misturavam com as gotículas da bruma que se tornara mais espessa, depois o colorido vermelho das luzes traseiras do carro foi esmaecendo lentamente até se perder na imensidade.
Para onde ela teria ido? Por que não o esperou? Sabia que precisava daquele amor, amor paixão, êxtase. Olhou para longe, onde seus olhos podiam alcançar e nada viu. Ela se fora...
Seus pensamentos estavam confusos...aquela neblina...lágrimas...
Repentinamente sentiu um imenso sossego em sua alma e num rastro de vapor ela viu sua sombra voar. Depois a escuridão. Escuridão. Depois, o nada.
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