Eu amo esse Fantasma do fogão! Conto premiado com Menção Honrosa na "Escola de Governo - Servir com Arte, 2009.
O FANTASMA (do fogão)
Não era lá uma cidade muito grande. Pelo contrário, era pequena demais. Todos se conheciam e havia um vínculo, um pacto entre os moradores, que fazia daquela pequena cidade, única. Ficava distante de tudo, no meio do nada. Correio, só lá de vez em quando. Um médico beirando os 70, um delegado meio cego que passava a maior parte do tempo jogando damas na praça da igrejinha, uma pequenina escola onde a velha professora dava aulas para uma única classe com todas as séries juntas, que nunca passava de dez alunos, um padre já beirando seus 80 anos.
Era dia de quermesse. Cidadezinha radiante. E toda a gente lá estava, com sua melhor roupa, banho tomado, gumex no cabelo e sorriso no olhar. As moças andavam daqui para ali e os rapazes, parados, cochichavam qual seria, dentre tão poucas, a escolhida para o baile. As carolas anunciavam o correio elegante e a criançada se divertia com as barraquinhas de jogos. Zezo, o pipoqueiro, enchia o ar com o aroma pipocante. Sentado sob o carrinho de pipoca estava ele, o fantasma. Observava “seu” Zezo enchendo os pacotinhos com o milho alvo e quentinho e ficava ali por algum tempo. Depois se dirigia para a barraquinha dos coelhos, sua favorita. Ficava lá, às vezes, encostado nas casinhas, mas preferia não atrapalhar o andamento do jogo, pois normalmente os coelhinhos não entravam naquela onde ele estava. Então ficava sentado no gradil da barraca. Durante o baile, permanecia ao lado do sanfoneiro e adorava ver os pares rodando pelo salão. Todos o viam, porém ninguém fazia comentário algum. Nunca ninguém ousou falar sobre o fantasma. O delegado fazia-se de mais cego ainda e o médico procurava nem dirigir o olhar à figura fantasmagórica. As crianças já nasciam acostumadas com a presença dele e sabiam guardar para si o insólito, que era assim que era. E que sempre foi. Nos dias de missa ele era o primeiro a chegar à igreja e se posicionava compenetrado junto ao altar. Padre Tobias já tinha por costume não ocupar aquele espaço. Quando as mulheres cantavam a ladainha, o fantasma cantava junto. É claro que não se ouvia a voz dele, que fantasma não tem voz, mas ele fazia pose e mexia a boca. Bonito de se ver. Morava na cozinha da casa de padre Tobias, perto do fogão a lenha. Ali, à noite, no cantinho, se aconchegava e ficava até que todos acordassem no dia seguinte.
Durante a semana, a vida caminhava devagar. Os homens seguiam para o campo, as mulheres aos afazeres de casa, a criançada na escola, o delegado e o pipoqueiro a jogar damas. E o fantasma espiando o jogo. Tudo estava em sintonia e os dias ali iam seguindo pequenos e frouxos.
Padre Tobias observava o baile quando se sentiu mal. Colou a mão no peito e tombou a cabeça para o lado. Num segundo chamaram o Dr. Nogueira:
— Está morto!
Fim de baile e de festa. Tristeza e comoção. Preparativos para o velório, flores, luto. Tudo conforme sempre foi. O dia amanheceu lindo e todos ainda permaneciam ao lado daquele que, durante muito tempo, foi padre e amigo da cidadezinha. O fantasma, o tempo todo junto ao caixão, ora pairava no ar ora aos pés do morto. Também ele perdera o amigo. À tardinha, hora do enterro, o cortejo dirigiu-se para o cemitério. As mulheres iam à frente cantando. Alguns homens revezavam-se no transporte do caixão e o fantasma, sentado no tampo, acompanhava tudo com seriedade.
Os dias se passaram e a preocupação agora era a vinda do novo padre. Como seria ele? Jovem? Velho? Calado como o padre Tobias? Admitiria o imponderável? Até que numa tarde chuvosa de sábado chegou padre Jeremias. Nem jovem nem velho. Simpático e com bons modos. Foi conduzido até a antiga casa de padre Tobias e recebido por Teresa que acompanhara por muito tempo o falecido.
— Seja bem vindo, padre. Venha comigo que vou mostrar seu quartinho. Não é lá essas coisas, mas padre Tobias gostava muito dele. Daqui um pouco sai a janta.
— Obrigado. Está tudo muito bem, muito bem! – parecia satisfeito o padre.
— Padre, o banheiro é lá fora, é limpinho e dá pra tomar banho.
Teresa acompanhou o novo morador até seu quarto, explicou tudo direitinho das coisas da casa e se colocou à disposição dele, como serviçal que era.
Jeremias acomodou seus poucos pertences no único armário do quarto, colocou alguns livros no cantinho do criado-mudo, afofou o travesseiro, experimentou o colchão, pegou uma toalha e dirigiu-se ao banheiro. Da cozinha vinha um aroma gostoso da comida feita por Teresa.
Após o banho, o padre aproximou-se da modesta mesa e a mulher lhe serviu um prato de sopa com pão. Depois de perguntar se Jeremias queria mais alguma coisa, retirou-se da cozinha andando tão silenciosa e minguadinha, como sempre foi.
Enquanto comia, o padre corria os olhos sem muita atenção pelo lugar. O armário dos alimentos, a janela com um vidro quebrado, a pequena cortina de chita, o fogão a lenha e aquele cantinho vazio, intrigante e cheio de significado. Sem dar muita conta, continuou comendo. Terminado o jantar, foi ao banheiro e em seguida retirou-se para o quarto, pois àquela hora já não tinha mais o que se fazer. Acomodou-se na cama, pegou um dos livros e com dificuldade pela pouca luz, pôs-se a ler. Da cozinha, um ruído quase inaudível de arrumação. E só.
No dia seguinte, os moradores já estavam bem cedo na igreja, mais por curiosidade do que pelo hábito. Quando o padre chegou, todos se levantaram num gesto de boas vindas. O fantasma lá estava também, mas se resguardou e ficou num canto isolado do altar. Depois da missa, das apresentações, todos saíram até a pracinha e Jeremias começou ali o convívio com aquele povo simples e tão limitado. Tudo transcorreu normalmente. A criançada, o delegado, as mulheres, todos queriam trocar uma prosa com o novo padre.
A noite do domingo chegou logo e Jeremias se recolheu em seu quartinho depois do jantar. Lá por umas três horas da madrugada acordou ainda vestido com a batina. O livro caído no chão.
— Peguei no sono!
Colocou o pijama e resolveu ir ao banheiro. Quando passou pela cozinha, acendeu a luz que mais parecia um tomate pendurado no teto de tão fraquinha. Deu uns dois passos e viu, naquele canto do fogão, a figura ectoplasmática, meio translúcida do fantasma que dormia o sono dos justos.
— Ahhh! O que é isso, minha Nossa Senhora? — gritou, segurando-se na parede.
O grito acordou Teresa e também o fantasma que pulou de seu cantinho, pairou no ar por um instante e foi se esconder dentro do forno do fogão.
— O que foi padre, o que é que o senhor tem? — veio a empregada solícita acudir aos apelos de Jeremias.
— Eu vi, eu vi uma coisa naquele canto! Não estou sonhando, eu vi! Ele... ele está lá...lá dentro! – Teresa pegou-o pelo braço impedindo-o de ir até ao fogão.
— Padre, o senhor vá dormir, teve um pesadelo... Vamos, eu ajudo.
— Mas... mas eu vi!
Estava transtornado o padre, mas obedeceu. Deitou-se e ficou pensando, pensando... Levantou-se, foi novamente à cozinha, acendeu o tomatinho, sondou da soleira da porta, viu que não tinha nada e voltou para a cama.
— É, foi um pesadelo.
E dormiu. Dormiu um sono inquieto e cheio de sonhos. Conseguiu superar aquela noite. No dia seguinte quis comentar com Teresa o ocorrido, mas ela parecia calada e distante.
— Teresa, o que era aquilo que eu vi?
— Sei não senhor que é que o senhor viu — a mulher continuava sem parar o que estava fazendo.
— Era um... um... fantasma! Sei lá...
— Sei não, que eu não estava aqui.
— É, deve ter sido pesadelo. — Queria acreditar nisso.
E a prosa morreu aí. Como ele, um padre, que estudara durante tantos anos Teologia, Filosofia, Sociologia, Psicologia, poderia ter “enxergado” um ser tão inconcebível? Só poderia ser um fenômeno extra-sensorial, produzido pela sua imaginação, talvez pelo cansaço ou mesmo pela ansiedade do novo desafio.
Assim, resolveu pôr o incidente de lado e tentar levar o dia normalmente. E foi o que fez. Começou uma faxina na papelada da igreja, separando certidões de batismo das de casamento e outros documentos. Uma confusão! Essas coisas que normalmente acontecem quando um novo funcionário assume o cargo de outra pessoa. À tardinha, dirigiu-se ao confessionário para ouvir os paroquianos em confissão. Missa das seis, tudo normal. À noite, tomou seu banho, jantou a sopa com pão e recolheu-se. Livro...cama...
Pela madrugada, acordou com muita sede. Sonolento e cambaleante, encaminhou-se para a cozinha. Acendeu a luz e lá estava ele novamente: o fantasma.
— Teresa, Teresa! Vem ver! É ele!
Os gritos foram tão altos que até o fantasma acordou assustado e abriu um bocão como se gritasse também e, dessa vez, precipitou-se pelo vidro quebrado da janela e se escondeu no galho da castanheira do quintal.
Padre Jeremias, de pijama e tudo, saiu para o quintal gritando, braços para o alto. Teresa, meio sonolenta, acompanhou-o sem dizer palavra. Os vizinhos acudiram ao acontecido. O padre gesticulava, falava alto e tentava explicar. A vizinha do lado correu providenciar um chazinho, a outra, água com açúcar. E ele, inconformado com a sua situação, caiu em si do ridículo que poderia estar causando. Acalmou-se, olhou em volta e procurou justificar a situação:
— Meus irmãos, me desculpem pelo transtorno. Eu não estou muito bem. Creio que é o cansaço. Voltem para casa! Me desculpem, não vai acontecer novamente.
— O padre está bem, mesmo? — perguntou a vizinha do lado com a xícara de chá na mão — Se quiser posso correr chamar o doutor!
— NÃO! Não! Não precisa, não! — respondeu quase gritando.
Nesse momento, sentiu uma imensa vergonha. O que o médico iria imaginar?
— Podem dormir sossegados. Já estou melhor.
Os vizinhos foram voltando para suas casas, alguns murmurando comentários. Padre Jeremias e Teresa entraram. O padre, encharcado de suor, mãos trêmulas e branco, muito branco, sentou-se à mesa de olhos fixos naquele pequeno espaço da cozinha. E ali ficou. Teresa perguntou se ele precisava de mais alguma coisa e aconselhou-o a ir para a cama. Serviu-lhe uma xícara de café morno que estava no bule em cima do fogão que continuava ainda quente, com algumas brasas acordadas.
— Obrigado, Teresa, não preciso de nada. Já passou. Vá deitar-se.
Xícara de café em sua frente, olho no cantinho... Amanheceu.
Jeremias tomou um banho, trocou-se e foi para a igreja rezar missa das seis. Estava com uma aparência lastimável, transparecendo a falta de sono. Entrou taciturno na igreja, onde os fiéis já estavam à sua espera. Foi até a sacristia, vestiu os paramentos e dirigiu-se ao altar. Todos só tinham olhos nele. Caminhando lentamente, parou de súbito e emitiu um grito surdo:
— É ele de novo! É o fantasma!
E lá estava ele, onde sempre ficava enquanto padre Tobias dizia a missa. O lugar era dele e desta vez não iria se esconder. Permaneceu no mesmo lugar, assim como todos os que estavam na igreja.
Padre Jeremias, derrubando o que tinha em sua frente, saiu correndo pelo corredor até a praça. Todos o acompanharam prestativos. O fantasma foi junto e se acomodou no banco de madeira. Sabia da sua tácita participação, que era o motivo do impasse, mas estava decidido a enfrentar o descomedimento, custasse o que custasse e, lógico, tudo ficaria bem, como sempre foi.
— Mas o que é que está acontecendo? Vocês não estão vendo? Olha... olha ele ali! Deus Pai Todo Poderoso! O que é isso? Ele me persegue!
Os fiéis trocavam murmúrios, porém sem mostrar indignação e muito menos mencionavam o sucedido. Apenas murmúrios. O fantasma assentia com a cabeça, compenetrado e participativo. Todos acreditavam, ou queriam acreditar, que o padre iria condescender e aceitar as particularidades excêntricas do lugar.
Jeremias observava a cena sinistra e, perdendo a compostura, se põe a agredir verbalmente seus fiéis.
— Loucos, loucos é o que vocês são! Eu não sou louco! Vocês sim e querem me deixar louco também!
Ele não conseguia compreender nada da cena que se desenrolava ali, em sua presença, na presença de todos. Será que era ele só o descompensado? Seria um sonho? Correu para casa, trancou a porta com a tramela, foi para o quarto, ajoelhou-se e rezou. Rezou como nunca tinha feito em sua vida. Olhou pela pequena janela e viu as pessoas ainda na praça, conversando normalmente, as crianças brincando. Não se continha mais! Era um terror! Um pesadelo. Nisso, ouviu uma batida na porta. Era o delegado, o médico e a velha professora.
— Entrem, entrem!
— Senhor Padre Jeremias, nós, representantes da cidade, temos que ter uma prosa muito séria com o senhor.
— O que é?! Vocês querem admitir que também estão enxergando assombração? Ou será que...
— Calma, padre. Escute... — Dr. Nogueira acomodou-se na cadeira e tentou tranqüilizar o padre que andava daqui para lá.
— Eu acho que o senhor está muito cansado... o senhor anda... bem, a verdade é que o senhor devia ir para a capital, tirar umas férias... Depois, até, o senhor pode voltar.
Na verdade, a presença de padre Jeremias estava sendo um transtorno na vida daquela gente. E era a essa conclusão que haviam chegado. Se não tinha se adaptado em dois dias com a gente daqui por que não ia embora?
— Mas eu não vou pra lugar nenhum! Vocês estão doidos! Eu vou dar um jeito nisso, ah, se vou! — gritando e gesticulando, mostrou a saída para os três que, cabisbaixos, saíram.
Quando se tem problemas, o negócio é esfriar a cabeça. E assim foi. O padre permaneceu em seu quarto o resto do dia. Não queria ver ninguém e não seria um fantasma safado que iria vencê-lo.
À noitinha, já refeito e com energia renovada, arrumou-se com paramentos próprios, bíblia, água benta, crucifixo e encaminhou-se até a praça, onde, pela última vez tinha visto aquele ser diáfano.
— Oh, criatura do outro mundo! Venha até aqui... — e, pronunciando palavras em latim, apelava para que o espectro aparecesse.
O fantasma, que nunca dispensava uma novidade, veio esvoaçante e acomodou-se confortavelmente no banco de madeira. Como não podia deixar de ser, a gritaria chamou a atenção e novamente um ajuntamento se formou ali na pracinha. O que é que padre Jeremias estava fazendo agora? Será que endoidou de vez? O delegado, chocalhando o barrigão, colocou-se o mais próximo possível do padre para poder enxergar melhor. Dr. Noronha, balançando a cabeça, conjeturava o desmando do religioso. Todos sussurravam e o padre rezava.
A noite já estava tomando parte de todo o fato e padre Jeremias rezava que rezava. Água benta, crucifixo etecetera e tal que só os clérigos entendem. E o fantasma lá, prestando muita atenção, assim como todos. De repente, padre Jeremias parou. Suando, água benta no fim, latim no fim, inconformado, cabeça baixa, falando como se estivesse tentando convencer a si mesmo:
— Não adianta, ele venceu. Ele não me quer aqui. Ninguém me quer aqui.
Nesse momento um silêncio estranho formou-se e o fantasma, saindo de onde estava, olhou para todos, planou sereno, contornou vagarosamente o padre, os amigos que ali estavam, levitou até o alto da igrejinha e dali ficou observando aqueles seres tão estranhos que sofrem, têm dores, brigam, fazem festas, riem, choram e o pior de tudo, morrem. E, num movimento transcendente, mágico, fez-se um espiral dourado, grande e belo que iluminou toda a cidadezinha. Girou que girou e todos ficaram ali, extasiados, presenciando o sucedido. Padre Jeremias dessa vez permaneceu calado. Sabia que algo além de todas as suas verdades estava acontecendo e, paralisado, admirou. Então, lá no alto, o espiral dourado, como numa surda explosão, se desfez em miríades reluzentes que foram lentamente disseminar brilho por toda a cidade. Depois, tudo acabou. As pessoas permaneceram ainda por alguns minutos ali na praça, entreolharam-se e, lentamente, dirigiram-se para suas casas. O sacerdote conservou-se no lugar. Parado. Sem ação e aniquilado, voltou trôpego para casa. Ao chegar lá, deteve-se na cozinha onde Teresa já estava há algum tempo. Voltou os olhos para a mesma direção onde ela estava a olhar e espreitou o cantinho do fogão. Sabia que não iria ver nada, como sempre deveria ter sido, mas sentiu um grande vazio. Foi para o quarto e lá ficou.
O outro dia começou mais cedo do que nunca para o padre. Missa, confissão, trabalho com os documentos da igreja. Ninguém, nem mesmo ele, falava do ocorrido. E assim foi durante os dias seguintes.
Um dia, Dr. Noronha comunicou que se mudaria para a capital. Emprego muito bom, melhor salário e assim foi também com a velha professora. Aposentadoria. Iria morar com uma irmã no sul. As crianças? Bem, logo virá uma professora nova, recém-formada, cheia de anseios e novidades para ensinar. O delegado encegou de vez e o pipoqueiro perdeu o companheiro de jogatina. As crianças tinham que ir muito cedo e voltavam já noitinha da escola distante, pois a nova professora nunca chegara. Para quem vender pipocas? “Seu” Zezo iria levar sua alegria noutro lugar.
Cada mês que passava era uma ou duas famílias que partiam da cidade. E assim foi. Até que um dia, padre Jeremias contou apenas cinco fiéis em sua missa de domingo.
Realmente, não tinha mais nada a fazer naquele lugar. Teresa tinha recebido convite para trabalhar com Dr. Noronha, mas não iria enquanto o padre estivesse ali.
Já fazia um ano da chegada do sacerdote, quando recebeu resposta de uma carta escrita ao Bispo que o transferiu para uma nova paróquia.
Chovia no dia em que o padre estava indo embora, assim como chovia quando chegou. Antes de sair da casa vazia — Teresa já havia partido — parou um momento diante do fogão a lenha e observou o cantinho onde durante muito tempo ele, o fantasma dormiu. Foi até lá e deixou no lugar uma flor que apanhou no jardim. Pegou a pequena mala, armou o guarda-chuva, fechou a porta, e dirigiu-se para a estrada até o ponto do ônibus. Não olhou uma só vez para trás.
Acredita-se ainda hoje que todos partiram de lá em busca de novas oportunidades e ninguém contou o que na verdade aconteceu. Nem antes nem depois de padre Jeremias. Nem mesmo ele. Só se sabe que a pequena cidade onde todos viviam em paz é hoje uma cidade totalmente vazia. Uma cidade fantasma